Trovadores por Ordem Alfabética

Trovadores por Ordem Alfabética

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quinta-feira, 27 de abril de 2017

Colbert Rangel Coelho


1
Aquela criatura louca,
que é razão do meu desejo,
vive tanto em minha boca,
mas nunca me deu um beijo.
2
A todo mundo insinuas
que não mando no que é teu,
mas tenho saudades tuas
e o dono delas sou eu!
3
A vida, às vezes, resume
contrastes deste teor:
só se morre de ciúme
quando se vive de amor.
4
Bebe-se tanto, meu chapa,
aguardente no Brasil,
que até mesmo o nosso mapa
tem a forma de um funil.
5
Beijei-te e, ardendo em desejos,
disseste (que hipocrisia!)
que era o teu primeiro beijo.
Só se foi naquele dia...
6
Bendigo minhas conquistas,
quando percebo depois
a inveja dos moralistas,
que falam mal de nós dois.
7
Berra a esposa, o filho berra!
E, apesar desse berreiro,
não troco meu lar em guerra
pela paz do mundo inteiro!
8
Chegaste toda elegante,
quando eu pensava ir-me embora.
“Vou ficar mais um instante.”
... E fiquei até agora.
9
Com tanto gringo passeias
e, de fato, nem supões
que a liga das tuas meias
virou Liga das Nações!
10
Corrigindo um velho erro,
aos brotos tecendo loas,
nem mesmo no meu enterro
quero saber de “coroas”.
11
Dando-me tanto trabalho,
sem me poupar um segundo,
o meu filho, esse pirralho,
é o melhor patrão do mundo.
12
Desce o viúvo ao jazigo
e uma voz familiar
repete o sermão antigo:
- Isto é hora de chegar?
13
D. Juan que, volta e meia,
mulher casada procura,
tem um pé na casa alheia
e outro pé na sepultura.
14
Doutor - peço que me ajude
nesta dúvida inclemente:
Se isto é Casa de Saúde,
como pode ter doente?!...
15
Em meio a tanta desdita,
tanta gente estende as mãos,
que a gente nem acredita
que somos todos irmãos.
16
Enquanto o sino da igreja
dobra, tristonho, a finados,
a liberdade rasteja
por entre arames farpados.
17
Entre o homem e a natureza,
há contrastes sem medida:
o pôr-do-sol – que beleza!
Que tristeza o pôr-da-vida...
18
Éramos dois indecisos
que vagávamos sem pressa...
Um sorriso... dois sorrisos...
E uma história que começa!…
19
Eu bendigo a luz da lua
e os passarinhos nos ramos:
brilha mais em nossa rua...
cantam mais quando passamos…
20
Eu não sei se o sol desponta
ou se ainda é madrugada...
Quando estou por tua conta
não dou conta de mais nada.
21
Eu quis, na cara ou coroa,
saber se és minha ou do Zé.
Fiquei na mesma. Esta é boa!
- O níquel caiu em pé!
22
Eu, sentado na beirada,
ela, junto da janela.
- Graças às curvas da estrada,
vou sentindo as curvas dela!
23
Eu sigo na minha rota
vencido, cheio de dor.
Causaram minha derrota
minhas vitórias de amor.
24
Eu sinto, vagando à toa
nos derradeiros degraus,
que a vida seria boa,
se os homens não fossem maus!
25
Meu coração, por despeito,
depois que te conheci,
vai batendo no meu peito,
enquanto apanha de ti.
26
Nas vitrinas de brinquedos,
o meu pranto tem lavado
as marcas de cinco dedos
de um menino abandonado.
27
Neste Salão elegante,
para ficar diferente,
mesmo a mulher inconstante
manda fazer... permanente...
28
Noivado, no mundo inteiro,
foi sempre assim entre os dois:
o noivo espera primeiro;
a noiva espera depois...
29
O amor seria mais brando
e o mundo seria lindo,
se Deus me visse chorando,
se Deus te visse sorrindo.
30
O cego sente desgosto
de não ver o que Deus pinta,
porque nunca viu o rosto
de uma criança faminta.
31
O confessor da capela
foi confessar-se depois...
Os pecados que ouviu dela
eram todos deles dois.
32
O mais doce dos abrigos,
minha casa é uma beleza:
aberta para os amigos,
fechada para a tristeza!
33
Passei a crer nos amigos
e em bondade ainda creio,
depois que vi dois mendigos
repartindo um pão ao meio.
34
"Perca a esperança", - disseste.
Cegamente, obedeci.
E tu mesma me trouxeste
a esperança que perdi.
35
Percebo, na trajetória
de um romance inconsequente,
que, às vezes, a mesma história
tem o enredo diferente.
36
Põe nos olhos uma venda,
se algo queres me ocultar,
porque embora não te entenda,
sempre entendo o teu olhar.
37
Por diabruras e um rebento,
naquele eterno noivado,
a festa do casamento
foi depois do batizado.
38
Por mais longe que passares,
há de ver o mundo inteiro,
que o mais falso dos olhares
é o teu olhar verdadeiro.
39
Por minha vida sem graça
passaste tão de repente...
Muitas vezes a que passa
é que fica eternamente!
40
Quando a gente perde o tino,
como perdi de repente,
uma mulher sem destino
faz o destino da gente.
41
Senta-te aqui ao meu lado,
ó anjo do meu desejo!
Santifica o meu pecado
com a pureza do teu beijo.
42
Se, ao confessar-se, a Teresa
disse tintim por tintim,
o vigário, com certeza,
sentiu inveja de mim.
43
Se de fato não me amaste,
de tudo o que me fizeste,
o beijo que me negaste
foi o melhor que me deste.
44
Se esta existência me cansa
é porque, na minha dor,
não me sobra em esperança
o que te falta em amor.
45
Se pudesse calcular
o transtorno que me deu,
Deus que fez o teu olhar
não teria feito o meu.
46
Sinto a maior das revoltas,
talvez você não presuma,
ao ver o mundo dar voltas
e nós não darmos nenhuma.
47
Sonho – punhado de areia
que a gente aperta na mão,
sem perceber a mão cheia
vazando de grão em grão.
48
Surpreendido de mansinho,
sem a fibra dos heróis,
naqueles lençóis de linho
eu me vi em maus lençóis.
49
Tão grande é minha saudade,
que voltarias, não minto,
se sentisses a metade
desta saudade que sinto.
50
Tenho dó do linguarudo
que, por gosto ou por maldade,
de nós dois já disse tudo
- e não sabe da metade.
51
Tenho tudo aqui na terra,
e tenho, apenas, o que?
- uma casinha na serra,
minha viola e você!
52
Vejo, após anos passados
de uma história que morreu,
que, entre sorrisos trocados,
acabei perdendo o meu.
53
Velho, nas minhas andanças,
já calejado de insultos,
tenho pena das crianças
num mundo cheio de adultos.
54
Vingativo, por maldade,
rogo-te pragas, meu bem:
que sintas esta saudade
multiplicada por cem.
55
Vivendo nos estribilhos
das colunas sociais,
muitos pais dão a seus filhos
noção de filhos sem pais.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Aloísio Alves da Costa


1
Agora que tu partiste
e a saudade está chegando,
desculpe o meu verso triste,
minha musa está chorando!...
2
Amarela é a cor mais bela
e é fácil de soletrar:
- é bastante unir com "Ela",
as letras do verbo "Amar"!...
3
Ante o medo que angustia,
talvez a grande mensagem,
fosse a que Deus nos diria ...
- Coragem, filho, coragem ...
4
Ao se pesar, a Constança,
que é gorda e não pesa pouco,
comenta, sobre a balança:
- Esse ponteiro está louco!...
5
Aos sonhos nunca se apegue,
que eles se vão de repente...
e sonho que se persegue
é o que mais foge da gente!...
6
As musas, não posso vê-las...
vivem num mundo distante...
mas posso além das estrelas
ouvi-las a todo instante
7
Bonança e paz sobre a terra
é tudo que peço a Deus,
para que as armas de guerra
virem peças de museus.
8
Buscando instantes felizes
pelos caminhos tristonhos,
foram tantos meus deslizes
que tropecei nos meus sonhos!...
9
Castigado desde cedo,
tanto apanhei do destino,
que nunca tendo um brinquedo,
nem lembro que fui menino.
10
Chegada bem mais feliz,
bem mais alegre, suponho,
é a de quem faz o que eu fiz:
- cheguei trazendo o meu sonho!...
11
Creio em Deus, unicamente
não ando rezando à-toa...
- tenho uma alma que sente
e um coração que perdoa!
12
Dando na alma embevecida,
laços de amor e amizade,
fui, na jangada da vida
um pescador de saudade!...
13
Dentro da noite inclemente
De frio intenso e garoa,
o agrado de um beijo quente
garante que a noite é boa!...
14
Dói a saudade em meu peito
e eu canto, não silencio...
Quanto mais pedras no leito
mais alto o canto do rio!
15
Dos ideais o maior
é viver, lutar, e, após,
deixar um mundo melhor
aos que vêm depois de nós.
16
Dos jogos o mais nocivo,
até hoje, em meu caminho,
tem sido o rebolativo
da mulher do meu vizinho!
17
Enquanto o Zé Liberato
sai em busca da gatinha,
pela janela entra um gato
que janta a sua sardinha!
18
Era uma vez uma dona
que andava a pé, sem ninguém;
e tanto pediu carona,
que ganhou carro também! ...
19
Esta saudade infinita
do amor que a gente viveu,
é a mensagem mais bonita
que o meu passado viveu!...
20
Feito de essência divina
e fluidos de eternidade,
um grande amor não termina,
mas se transforma em saudade!
21
Feliz é quem, pela vida,
envelhecendo sem fugas,
alegre e de fronte erguida,
zomba do espelho e das rugas.
22
Já diz o velho ditado,
que lenha verde e viúva,
com paciência e cuidado
pegam fogo até na chuva!...
23
Mensagem que se recebe
e nos enche de quimeras,
é aquela em que se percebe
que as palavras são sinceras
24
Meu sonho em mágoa desfeito,
tão grande fez meu desgosto,
que não cabendo em meu peito
se fez pranto no meu rosto!...
25
Minha irmã conta as topadas,
que já deu pelos caminhos,
pelas pedras arrancadas...
- E eu conto, pelos sobrinhos!...
26
- Na carta que ela me fez,
nas reticências sem fim,
a incerteza de um "talvez"
dá-me esperanças de um "sim"...
27
Na farmácia, ao ver o busto
da balconista, hesitante,
em vez de xarope, o Augusto
pediu mesmo foi calmante!...
28
Na linha desta saudade,
que é tua e também é minha,
nós somos nós de verdade
nas duas pontas da linha!
29
Na luta contra a cobiça,
mantendo na alma a esperança,
meu desejo de justiça
é maior que o de vingança!
30
Não busques falso tesouro
se bens duráveis garimpas...
Nem sempre as mãos que têm ouro
e pedras raras, são limpas...
31
Não condeno o revoltado
que defende seu direito...
– revolta de injustiçado,
merece todo respeito!
32
Não preciso, mãe, no templo,
rezar tanto de joelhos...
- Minha luz é o teu exemplo,
minha prece os teus conselhos!...
33
Na tua ausência, ao meu lado
em cima da nossa mesa,
o candelabro apagado
mantém a saudade acesa.
34
Na tumba da falecida,
o esposo ciumento, à porta,
murmura: - Volta, querida.
E ela responde: - Nem morta!
35
Nem ouro, nem pedra rara,
nada que vem do garimpo,
vale um fio de água clara
no leito de um rio limpo...
36
No momento doce e breve
que a inspiração nos invade,
dos versos que a gente escreve,
a musa escreve metade!...
37
Num armário sem conforto,
do qual não guardo saudade,
guardado, me fiz de morto,
pra não morrer de verdade...
38
O meu cansaço é tamanho,
que, na mesma caminhada,
eu quase não acompanho
minha sombra na calçada!
39
Partiste, chorando tanto,
no teu rumo oposto ao meu,
que, solidário ao teu pranto,
o céu fechou-se... e choveu...
40
Partiste, cigana errante,
e de uma noite em teu leito,
restou-me um sonho distante
e esta saudade em meu peito!...
41
Peço a Deus que o tempo corra,
e corra a nosso favor,
para que este amor não morra
antes que eu morra de amor!…
42
- Pelas ruas da lembrança,
nas cirandas das calçadas,
saudade, sonho e esperança,
brincam juntos de mãos dadas!
43
Pelos motivo da guerra
e pela falta de pão,
não culpo quem fez a terra,
mas quem fez a divisão.
44
Quando a lei se faz omissa
e a impunidade se solta,
do silêncio da justiça
surgem gritos de revolta...
45
Quando a noiva viu a cama
que a esperava pra dormir,
mandou sustar o proclama
e desistiu do faquir!...
46
Quando a vida se complica
nas horas de solidão,
amigo é aquele que fica
depois que os outros se vão.
47
Quando a voz de um pai ressoa
e a de um filho abaixa o tom,
conselho é semente boa,
plantada em terreno bom!
48
Quando instantes de carinho,
trazem saudades depois,
lembrança é viver sozinho
de um sonho vivido a dois.
49
Quando não vens, na ansiedade
desses momentos perversos,
vem a musa da saudade
pôr mais saudade em meus versos.
50
- Quando o amor se faz lembrança
e a solidão nos invade,
ou se vive de esperança
ou se morre de saudade...
51
Quem não aprende em menino,
tem que aprender na velhice,
que ter pai pobre é destino,
mas sogro pobre é burrice!…
52
Sambando quase pelada,
no 'No bloco do vai sem medo",
Paulete foi mais cantada
que o refrão do samba enredo..
53
Sempre que a vida me nega
segurança nos meus passos,
minha esperança me pega
e me carrega nos braços!
54
Sendo orador de alta escala,
é tão profundo e erudito,
que a gente, quando ele fala,
só entende o... "tenho dito".
55
Se o telefone falasse
o que nele a gente fala,
duvido que alguém deixasse
o telefone na sala!...
56
Somente um bem acontece
quando a gente cai doente:
doente é que se conhece
quem é amigo da gente.
57
Sou de onde o vento trabalha,
lá onde a brisa fagueira
embala de leve a palha,
beijando a carnaubeira! ...
58
Teimei no amor... e errei tanto
na teimosia de amar,
que eu mesmo não sei mais quanto
errei tentando acertar!...
59
Teu olhar... a voz macia...
tuas promessas de amor...
- são notas de fantasia
na pauta da minha dor.
60
Vencendo o tempo e a distância,
mensagens da mocidade,
sempre nos trazem da infância,
saudade ... muita saudade...
61
Volátil, discreta e doce,
no instante certo, presente,
a musa é como se fosse
o anjo-da-guarda da gente…

terça-feira, 25 de abril de 2017

Alba Christina Campos Netto


1
A dentadura escorrega,
mas depois de muito estudo,
agora, em vez de corega,
ele passa cola-tudo.
2
A festa já estava brega
quando a ilustre convidada,
gingando a saia de prega,
escorrega e cai sentada!
3
Ante os preços, toma um porre,
e a quem lhe diz que isso é um erro,
responde que só não morre
por não ter grana pro enterro.
4
“A onça entrou no terreiro
e sua mulher tá lá!”…
Responde o peão, matreiro:
“deixa onça se daná!”…
5
As mentiras bem montadas
que me dizes com prazer,
são algemas desgastadas
que eu teimo em não desprender
6
Brigamos,mas a saudade,
inconformada, ergue a chama
nos abajures de jade
que guardavam nossa cama.
7
Brigas de amor têm segredos,
e eu juro que me comovo
ouvindo os nós dos teus dedos
batendo à porta de novo...
8
Depois de encher nosso quarto
desse gozo em que se esmera,
você parte, e eu me reparto
nos delírios de outra espera.
9
Em momentos exaltados
sem poder falar e agir,
o silencio dá recados
que poucos sabem ouvir.
10
Fui lembrar nosso namoro,
e pelo jardim, os gnomos
juntaram-se a mim no coro
das lembranças do que fomos.
11
Gastou no terno e gravata
todo o dinheiro que tinha.
Que frustração, pois a gata
só queria a camisinha.
12
"Há uma loura acompanhando
seu marido o dia inteiro..."
- Pois vai acabar cansando...
O meu marido é carteiro!
13
Indiferente partiste,
sem adeus, nem emoção,
sem remorso, e o que é mais triste,
nem sentiste o meu perdão.
14
Letras feias, mal impressas,
e o descuido peculiar
de quem, convidando às pressas,
sabe que eu não vou faltar...
15
Meu destino é um desatento
marinheiro em fantasias,
baixa as velas quando há vento,
e a solta nas calmarias.
16
Meu sonho é ilusão ligeira
que achando a fresta perdida,
faz a dança da poeira
nos raios de sol da vida...
17
Meus sonhos em revoada
foram-se embora, e eu me sinto
andorinha desgarrada
no meu verão quase extinto.
18
Morre o sonho, e as nossas vidas,
antes, caminhos iguais,
são duas trilhas perdidas
que não se cruzam jamais.
19
Não podendo compreendê-las,
apaguei as fantasias,
sem saber que eram estrelas
nas minhas noites vazias.
20
Não quis te assustar, de fato,
nem causar esse desmaio.
Vi o frango inteiro em teu prato,
então gritei: "Papagaio"!!!
21
Nas armadilhas da vida
às vezes, o amor mais lindo,
dá seu recado, e em seguida,
manda um outro, desmentindo.
22
Nas leis com que nos afagam
a confusão é tamanha,
que todos sabem que pagam
mas ninguém sabe quem ganha.
23
Nas nossas vidas truncadas,
juntos, sem sonhos nem crença,
mãos dadas, ou separadas,
já não fazem diferença...
24
No jantar, foi fim de papo
quando a esnobe tão segura
foi atrás do guardanapo
que levou-lhe a dentadura.
25
No quarto, vazio agora,
nosso velho cobertor
cobre as mentiras que outrora
foram delírios de amor...
26
Noites frias, inclementes,
sopro a vela, penso em ti,
e durmo nas cinzas quentes
do amor que eu nunca esqueci.
27
Num sorriso, e sem aviso,
eu te espero, e quem me dera
desta vez o meu sorriso
continuasse além da espera...
28
O jardim, feito em meandros
é o teu refúgio e o lugar
onde meus olhos malandros
não cansam de te espreitar.
29
O que eu fiz de mais errado
nos meus momentos instáveis,
foi não ter desabafado
tantas mágoas reparáveis...
30
Para o poeta, é verdade,
os temas não são problema...
o amor, o sonho e a saudade
cabem sempre em qualquer tema.
31
Perdão de amor é incerteza,
é aquela pedra em desvio
que segura a correnteza
mas não traz de volta o rio.
32
Pergunta em sã criancice
quando a visita aparece:
com que bicho o papai disse
que essa mulher se parece?
33
Preciso de um tratamento,
um remédio que me ajude
a não sofrer com o aumento
do meu plano de saúde.
34
Quando um grande amor se afasta
deixa uma nota escondida
na canção que o vento arrasta
nas folhas secas da vida.
35
Quantos anos dá pra mim?
diz vaidosa, e com desdém,
o galã responde assim:
já não chegam os que tem?
36
Quase inverno... sem escolhas
eu vejo o outono passar
levando as últimas folhas
que teimam em me abraçar.
37
Quebro a taça do passado
e o vinho espalhado ao chão
é meu brinde apaixonado
aos cacos de uma ilusão.
38
Revivendo meus espinhos
fiz descoberta assombrosa,
nunca vieram sozinhos,
trouxeram sempre uma rosa.
39
Se dissesses, na partida,
fica... me escuta... Por mim,
mesmo com alma ferida,
eu teria dito sim.
40
Se encontras caminhos falhos
na busca do amor de alguém,
o coração tem atalhos
que nenhum mapa contém.
41
Se essa estrada que foi nossa
dividiu-se, não destruas
nenhum atalho que possa
juntar outra vez, as duas...
42
Seja em palácio ou favela,
brigam, mas amam também,
e se há feijão na panela
toda família vai bem.
43
Tiro, escondo, torno a pô-lo
na carteira, e ninguém vê
que esse retrato é um consolo
que eu guardo, não sei por quê...
44
Tua sombra é um sonho triste
num grotão sem claridade
onde uma fonte resiste
molhando o chão de saudade.
45
Uma ficou sobre a mesa:
a dos sós... nem nome tinha...
E eu descobri, com tristeza,
que essa medalha era a minha!
46
Vai o rei para o combate,
cercado de proteção
e, às vezes, o xeque-mate
é dado por um peão.
47
Vai o trambiqueiro à igreja
e reza, benzendo os crentes:
Que a boa fé sempre esteja
ao lado dos meus clientes...
48
Vens de volta, tão suave,
vem, procura a mesma porta,
se o tempo entortou a chave,
o coração desentorta.
49
Vivi tantos temporais,
uns reais, outros à toa,
que hoje quando dão sinais,
eu vejo apenas garoa.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Humberto Del Maestro


1
A chuva cessou há pouco, 
mas o frio continua... 
Grita o vento como um louco 
por entre os becos da rua. 
2
Acordo, olho o céu e vejo 
que a manhã imaculada 
traz os perfumes de um beijo 
que roubou da madrugada. 
3
A minha casa é pequena, 
e embora tal restrição, 
nela reside serena 
minha doce inspiração. 
4
Amo a minha biblioteca, 
doce nave da ilusão, 
pois nela sigo até Meca 
ou molho os pés no Jordão. 
5
Ando em busca da centelha 
do teu beijo de esplendor 
e da papoula vermelha 
que escondes com teu pudor. 
6
Ao longe, de madrugada, 
por sobre o mar terno e lindo, 
a pequenina jangada 
parece a lua dormindo. 
7
As nossas línguas macias, 
em carícias muito loucas, 
parecem duas enguias 
disputando em nossas bocas. 
8
A tarde se abrasa em cores 
e lentamente desmaia. 
O céu, pintado de flores, 
lembra uma enorme lacraia. 
9
A tarde triste adormece. 
Estrelas piscam em cruz... 
Ao longe, a lua parece 
delgada foice de luz. 
10
A trova é um poema grácil, 
que surge de um mundo etéreo: 
- Para quem sabe é bem fácil. 
- Pra quem não sabe é um mistério. 
11
Brilha o céu como turquesa 
e o nascente é de romã… 
Nunca vi tanta beleza 
surgindo assim, na manhã. 
12
Chego a pensar que sou forte, 
vendo a velhice chegar, 
pois mesmo perto da morte 
consigo ainda sonhar. 
13
Cresci buscando esperança, 
nada achei e foi fatal. 
E quantas deixei, criança, 
brincando no meu quintal. 
14
De noite durmo e desperto... 
E, nesse doce vaivém, 
a infância chega tão perto 
que escuto apitos do trem. 
15
De tudo quanto me assiste, 
neste mundo miserando, 
nada me fala mais triste 
do que a velhice chegando. 
16
É frio, a noite descansa; 
o espaço é vasto e medonho. 
De repente, a lua mansa 
surge nos braços de um sonho. 
17
É noite calma de lua. 
Os ventos, em rodopios, 
são violinos na rua 
tocando valsas nos fios. 
18
Escondes mito e bonança 
na aparente timidez. 
Tens a graça e a temperança 
de um gatinho siamês. 
19
Essa mancha exígua e preta, 
no seu colo alvo e desnudo, 
lembra frágil borboleta 
toda feita de veludo. 
20
Fico olhando o teu aprumo. 
És linda e jovem demais... 
E eu sou um barco sem rumo, 
sem mais direito ao teu cais. 
21
Inefável labareda, 
a borboleta a voar 
parece um lenço de seda 
que um anjo esqueceu no ar. 
22
Meditando em meu cansaço 
não me entristeço nem rio... 
os troféus do meu fracasso 
valorizam meu vazio. 
23
Menino ainda acredito, 
olhando o céu com minúcia, 
que as estrelas do infinito 
sejam mimos de pelúcia. 
24
Meus versos feitos de sedas, 
do mais puro tom lilás, 
lembram calmas alamedas 
em tardes cheias de paz. 
25
Minha porta, que era arguta, 
de repente ensandeceu. 
Qualquer toque que ela escuta, 
julga logo ser o seu. 
26
Na doce tarde de outono, 
ruflam brisas em farol. 
As nuvens louras, sem dono, 
lembram novelos de sol. 
27
Na estrada que compartilho, 
meu coração, aos pedaços, 
lembra a mãe que já sem filho 
nina a solidão nos braços. 
28
Nasci na vida tristonho 
e vou por ela tão sério, 
que é por isso que o meu sonho 
tem as marcas de um cautério. 
29
Noite linda. O céu aberto 
faz-se de suave emoção. 
A lua chegou tão perto 
que eu quase a peguei na mão. 
30
Numa batalha renhida, 
vou lutar até o fim, 
pois quero sair da vida 
muito melhor do que vim. 
31
O arquiteto faz o traço, 
seu trabalho é no nanquim. 
Eu vivo as trovas que faço, 
que elas são partes de mim. 
32
O dia já nasce lindo. 
Passam ventos frios, nus. 
A manhã acorda rindo 
num escândalo de luz. 
33
Olhos brandos, mãos que espargem 
sorrisos como troféu... 
Pelo que os filhos lhe fazem 
as mães merecem o céu. 
34
O menino que era sonho 
de alma da cor do marfim, 
não sei mais onde é que o ponho, 
depois que cresceu em mim. 
35
O tempo amassou meu rosto. 
Não doeu, foi devagar... 
Mas as mágoas e o desgosto 
como é que custam passar. 
36
Pai querido, não morreste, 
que a morte nos lembra um fim 
e tudo aquilo em que creste 
anda a viver dentro em mim. 
37
Passa o vento num arrulho. 
A noite é fria lá fora. 
Como é gostoso o barulho 
da chuva caindo agora. 
38
Pelas manhãs de bonança, 
junto à brisa que flutua, 
borboletas são crianças, 
brincando alegres na rua. 
39
Penso ainda ser menino, 
correndo à toa na rua, 
empinando, sem destino, 
a branca raia da lua. 
40
Pressinto estar de partida 
e o mistério me seduz. 
Se fecho os olhos na vida 
acordo em mimos de luz. 
41
Que bom ficarmos juntinhos, 
distantes de um novo adeus, 
pois vejo nos seus olhinhos 
todo o carinho de Deus. 
42
Quero as minhas tardes feitas 
de luzes em algazarras; 
cheias de cores perfeitas, 
com festivais de cigarras. 
43
Saudade é dor muito estranha, 
toca no peito tão fundo 
que sinto que a minha entranha 
abriga as dores do mundo. 
44
Saudoso comprei passagem 
de retorno à minha infância. 
Mas como seguir viagem 
se eu nem sei mais a distância? 
45
Tem encanto, tem magia 
minha pequena janela, 
que ao abri-la a cada dia 
eu vejo a vida mais bela. 
46
Trabalho, sofro, padeço 
carregando a minha cruz, 
para ver se pago o preço 
desta roupagem de luz. 
47
Tudo se foi da lembrança... 
E do nosso antigo enredo 
nem mais a marca da aliança 
se acha gravada em meu dedo. 
48
Um doce aroma flutua 
nesta noite de ateneu 
e há tanta paz pela rua 
que eu penso que o céu desceu. 
49
Um gesto só, um arranjo, 
um traço apenas de acuro 
e acabarás sendo o anjo 
que em minhas preces procuro. 
50
Um remorso me espezinha 
se ponho, com aflição, 
no seu corpo de andorinha 
meus olhos de gavião. 
51
Veio Deus. Do caos agreste, 
ergueu o espaço sem fim. 
Porém tu bem mais fizeste 
do nada que havia em mim. 
52
Vitória: – um colar de ilhas! 
Cantar-te, com que talento?! 
Já bastam as maravilhas 
que escuto na voz do vento.