Trovadores por Ordem Alfabética

Trovadores por Ordem Alfabética

A - Z

  • A (11)
  • B (2)
  • C (5)
  • D (8)
  • E (6)
  • F (6)
  • G (3)
  • H (8)
  • I (5)
  • J (14)
  • L (7)
  • M (4)
  • N (6)
  • O (9)
  • P (3)
  • R (6)
  • S (8)
  • T (4)
  • V (4)
  • W (3)
  • Z (1)

quarta-feira, 22 de março de 2017

Nádia Huguenin


1
A nossa história proibida
vence a mágoa e o preconceito
quando o amor da minha vida
vem aninhar-se em meu leito!
2
Ante a insistência que existe
no apelo do teu olhar,
meu coração não resiste...
E pecado é... não pecar!...
3
Ante o olhar austero e frio
daqueles que te criticam,
sê feito as pedras do rio:
vão-se as águas... elas ficam!
4
Ao ver vazio o meu leito,
minh'alma triste te chama.
Mas o vazio do peito
é bem maior que o da cama...
5
Apresentando-me a prole
(que é quase uma multidão),
justificou-se: - Foi mole,
não tenho televisão...
6
Aquele olhar envolvente
que com meus olhos cruzou,
fez qual estrela cadente:
mostrou-me a luz... e passou.
7
Caprichoso, o meu destino,
de mansinho, sem alarde,
feito um travesso menino,
mostrou-me o amor... e era tarde!...
8
Em busca da liberdade
propus fugir dos teus braços,
e, por castigo, a saudade
aprisionou-me em seus laços.
9
Enquanto houver na calçada
crianças dormindo, a esmo,
eu vou - se não fizer nada -
me envergonhar de mim mesmo...
10
Estes versos que componho,
a cada ilusão perdida,
são retalhinhos de sonho
que remendam minha vida.
11
Este vazio em meu peito...
Esta falta de carinhos...
São drogas de longo efeito,
vão me matando aos pouquinhos!...
12
Foi amigo de verdade,
meu exemplo, meu herói.
Hoje meu pai é saudade,
e como a saudade dói!...
13
Foi por falta de carinho,
que errei e perdi meus passos,
mas bendigo o “mau caminho”
que me levou a teus braços…
14
Loucuras... quantas já fiz
nos tempos da mocidade...
"Morri de amor"- fui feliz!
Hoje, vivo de saudade…
15
Não quero fazer fofoca,
nem falar da vida alheia,
mas a mulher do Candoca,
Coitadinha! Como é feia!…
16
Não tem jeito essa loucura...
Nosso amor inconsequente
fez de mim, mulher madura,
uma eterna adolescente!…
17
Na pensão do Deodato
é variado o menu:.
Vai do churrasco de gato
à coxinha... de urubu !
18
No amor que a nós dois encanta
e, para alguns, é até “crime”,
há tanta ternura, tanta,
que, mesmo errado... é sublime!…
19
No hospício, o maluco Otelo
fez um grande zumzumzum:
quis engolir um martelo
para quebrar... o jejum!…
20
No INSTANTE em que, lá na praça,
recebemos nosso irmão,
e cada um nos abraça,
é imensa a nossa emoção.
21
Nossas brigas são tão raras
e a indiferença entre nós
é tanta, que nem reparas
que estamos juntos... e sós.
22
O mundo inteiro condena
nosso amor por ser pecado,
mas eu pago qualquer pena
por um instante ao teu lado!
23
"Perdão" propões ao voltar­,
por mais que isto me doa,
meu corpo quer perdoar,
mas minha alma não perdoa.
24
Perdi sonhos... esperanças,
perdi tudo. E em meu cansaço
tento reter as lembranças
nos versos tristes que faço…
25
- Quero a pensão do menino!"
- berrava - e, na hora H,
teve que piar bem fino:
deu zebra no DNA!
26
Se fofoca desse grana,
minha sogra, dona Eutária,
em menos de uma semana
estaria milionária!
27
Tirei da gaveta o sonho,
limpei o mofo, espanei,
revi meu viver bisonho
e, afinal, recomecei.
28
Ultrapassei meu limite,
mais uma vez te aceitei...
Mas o amor tudo permite
e eu, tola, recomecei.
29
Uma moleza danada...
E, quando a mulher reclama,
sonolento, diz "- Que nada,
eu sou muito bom... de cama...”

terça-feira, 14 de março de 2017

João Rangel Coelho


1
A angústia que mais me aterra,
neste mundo assim medonho,
é sentir-me preso à terra,
tendo asas para o sonho.
2
A ausência vale, em verdade,
como teste de valor:
- mede, através da saudade,
a fibra de um grande amor!
3
A chuva embala quem sofre...
Quando chove como agora,
a gente abre um velho cofre,
lê velhas cartas e chora...
4
Aérea, fluída de gaze,
corpo volátil de essência
sua presença era quase
como se fosse uma ausência.
5
A justiça imaculada,
tendo no céu as raízes,
não pode ser acusada
dos erros dos maus juízes.
6
A lágrima é um pingo d'água,
Irizado e transparente:
- A bailarina da mágoa
dançando no olhar da gente.
7
Ante as cantigas de roda
das crianças no jardim,
a minha infância vem toda
cantar também dentro em mim.
8
Ao ver-te sobre os embalos
do seu Packard, eu sussurro:
"Um carro de cem cavalos
guiado por um só burro"…
9
Aquela moça, tão casta,
bebe muito... E a gente vê,
ante a barriga que arrasta,
que o seu caso é de... bebê…
10
Aqui repousa, sem tédio,
esse doutor eminente,
porque tomou o remédio
que receitara a um cliente...
11
As  reticências, com a gaze
de sua móbil perícia,
são bailarinas da Frase,
para o ballet da Malícia..
12
A tua mão cor de neve,
frágil lírio delicado,
pousou na minha, de leve,
para este adeus tão pesado!
13
A vida é mar inclemente,
amargo, cheio de mágoas,
que põe nos olhos da gente
o gosto das suas águas.
14
A vida é onda encrespada
por onde a gente, a nadar,
nada, nada, nada, nada,
até ao nada chegar!
15
A vida, frágil espuma,
volátil como as essências,
nos lembra um ai que se esfuma
vagamente, em  reticências…
16
Ciumento, com fúria louca,
às vezes penso, afinal,
que beijas na minha boca
a boca de um meu rival.
17
Criança! O medo me invade
ao ver, ingênuo e profundo,
o teu olhar sem maldade
ante a maldade do mundo.
18
Das dores que me consomem,
eis a que mais me espezinha:
ver que há de ser de outro homem
quem nasceu para ser minha.
19
Das rodas da gente honrada
sempre enxotado como és,
já deves ter calejada
a zona dos pontapés...
20
Deixei aberta a janela
desta minha alma sonora...
A saudade entrou por ela
e nunca mais foi-se embora.
21
Enquanto o tempo se vinga,
anoitecendo as auroras,
o velho relógio pinga
as  reticências das horas…
22
Filhinho meu, ó meu sonho,
clarão dos meus olhos baços,
tendo-te ao colo, suponho
que tenho o mundo nos braços.
23
Há no silêncio das plantas,
a germinar pelas leivas,
o grito de mil gargantas,
numa algazarra de seivas.
24
Há presente, em minha sorte,
uma angústia indefinida...
Não é bem medo da morte;
é, talvez, medo da vida!
25
"Hoje estás outro!" e a boca
beijou-me, falando assim.
 "Eu... outro? Que coisa louca!"
Tive ciúmes de mim!
26
Marejaram pequeninas
nos seus olhos rasos d’água,
três lágrimas cristalinas:
- As reticências da Mágoa...
27
Maria Clara não poupa
gastos com a moda. Morou?
E vai gastando com roupa
o que, sem ela, ganhou...
28
Mesmo na treva mais densa,
seu estro tais luzes leva
que, trovador de nascença,
a trova lhe trava a treva.
29
Morre, nostálgico, o dia...
E, ao vê-lo morrer, me ocorre
ter a mesma nostalgia
da hora em que o dia morre..
30
Nas ânsias insatisfeitas
dos mais frustrados esforços,
certas angústias são feitas
com retalhos de remorsos.
31
Nas brancas ruas caiadas,
da terra do sono infindo,
as portas estão fechadas
e todos estão dormindo...
32
Na sua infinita mágoa,
vindo da fonte, em que medra,
a fibra da gota d'água
perfura, aos poucos, a pedra.
33
No teu quarto, de joelho
curvado à beleza tua,
tenho ciúmes do espelho
que já te viu toda nua.
34
Numa alegria incontida,
sou bem feliz, porque ponho,
na taça escura da vida,
o claro vinho do sonho!
35
O cura de Santarém
é milagroso de fato:
os afilhados que tem
são-lhe o perfeito retrato...
36
Ó filhinha que me encanta,
que me acarinha e me quer!
Há de ser mulher e Santa,
mais Santa do que Mulher!
37
O mar imenso e profundo
vai gemendo, sem parar...
Todo gemido do mundo
geme no fundo do mar!...
38
O mundo! Dele me escondo
com pudicícia e recato.
Dizem que o mundo é redondo,
mas está ficando chato...
39
Os homens armam-lhe engodos...
E ela, longínqua e modesta,
passa, intocada, entre todos,
com a fibra de ser honesta.
40
Os séculos e os milênios
não apagam na verdade,
a fibra clara dos gênios,
ungidos de eternidade.
41
Papai Noel, como, explicas
teus gestos nem sempre nobres?
Dás tudo, às, crianças ricas,
e nada às crianças pobres.
42
Para consolo da gente,
na vida, luta que cansa,
há uma vitória latente
dentro de cada esperança.
43
Por que meu fado se atreve
a dar-me após a desdita,
para um amor que foi breve
esta saudade infinita?
44
Sendo o amor uma batalha,
sentimos que, em sua trama,
não há vitória que valha
a rendição de quem ama.
45
Senhora, que tenho em mira!
Por amar-vos, para ter-vos,
em vez das cordas da lira,
tanjo as fibras dos meus nervos!
46
Senhor Deus, ó Pai dos pais!
Por que motivo consentes
entre teus filhos iguais,
destinos tão diferentes?...
47
Se o Mar,com os dedos das ondas,
vem em delírio afagar
as tuas formas redondas,
tenho ciúmes do Mar.
48
Tenho a fibra dos audazes.
Mas tu, menina, tão mansa,
da minha fibra é que fazes
teu brinquedo de criança.
49
Toda saudade consiste
neste contraste evidente:
uma alegria tão triste
numa ausência tão presente.
50
"Todo animal é imperfeito!"
Afirma o José de Tal.
(Só o homem, no seu conceito,
é que é um perfeito animal.)
51
Se tu és rico e eu mendigo,
ao morrermos tu mais eu,
não levas nada contigo
e eu levo tudo o que é meu...

segunda-feira, 13 de março de 2017

João Freire Filho


1
Ah! Se esta brisa pudesse,
depois de tanger-me a lira,
levar-lhe, em forma de prece,
as trovas que ela me inspira!...
2
Alegava, após pilhado...
pilhando uma residência:
- A casa é de um deputado...
Concorrência é concorrência!”
3
A lua, que nos clareia,
é diferente de quem,
recebendo luz alheia,
não ilumina ninguém!
4
Ante a dor… não esmoreço,
sabendo, em meu caminhar,
que a Vida não cobra preço
que não se possa pagar
5
Às vezes, cismando eu fico
e ideias assim me ocorrem:
- "Porco gordo e sogro rico
só dão lucro quando morrem"...
6
A saudade é dependência…
É meu vício, em tal medida,
que você se fez a ausência
mais presente em minha vida!
7
As revoltas não têm fim
e explodem cada vez mais,
que a fome acende o estopim
das convulsões sociais!
8
A Terra vive conflitos,
sangrando, de guerra em guerra,
e é com voz branda… e, não, gritos…
que se há de ter Paz… na Terra!
9
A tormenta, que atordoa,
não distingue, em mar bravio,
a humildade da canoa…
da soberba do navio!…
10
A Verdade anda tão rara,
que a Mentira, sorridente,
já nem sequer se mascara
para enganar tanta gente!
11
A vida me presenteia
com tamanhas alegrias,
que a tristeza é um grão de areia
na ampulheta dos meus dias!
12
Bendita a fonte escondida…
que escorre e, por onde passa,
trazendo a graça da vida,
dá tanta vida de graça!
13
Cai na rua… Perde o tino,
no alcoolismo em que se esvai…
E, aos passantes… um menino
diz, inocente: – “É meu pai”…
14
Cantando terno estribilho
e esquecendo que era escrava,
Mãe Preta aleitava o filho
de quem os seus açoitava!…
15
Cometeu esta tolice
aquela ciumenta crônica:
que o marido despedisse
a "secretária eletrônica"!
16
Com sabor de penitência…
de brinde contra a vontade,
vou bebendo a tua ausência…
em meus porres de saudade!
17
Com seus dois metros e tal,
a solteirona assegura
não ter casado, afinal,
por falta de homem à altura!
18
CURVA FECHADA - ele leu
na placa... e, em sua tolice,
parou o carro e desceu...
para esperar que ela abrisse...
19
Da ternura ao desvario..
do desvario à ternura,
nosso amor vive no fio
da mais sublime loucura…
20
Deu fuzuê, acredite,
com a filha do Aristeu,
quando a sua “apendicite”
com quatro quilos nasceu…
21
Distante, a lua prateada,
entre nuvens de inconstância,
me lembra a mulher amada…
mais amada… se à distância!
22
Distante do olhar das ruas,
num sonho que me enternece,
em nosso céu brilham luas
que só nosso amor conhece!…
23
Dos meus tempos mais risonhos
descubro, agora, os segredos:
- cabia um mundo de sonhos
no meu mundo de brinquedos!
24
É bem mais que um pesadelo
a minha sogra ‘querida”...
Ela é um fio de cabelo
na sopa da minha vida...
25
É o desvario do mando
de alguns Senhores da Terra…
que implanta, de quando em quando,
os desvarios da guerra!
26
Eu compreendo os desvios
a que leva uma paixão…
As vezes, são desvarios
que dão à vida… razão!…
27
Eu lhe disse: “se eu passar
dos trinta, não casarei!”.
E ela: “enquanto eu não casar,
dos “trinta” não passarei...”
28
Faz-me rir certo vizinho:
a uma dona meio macha...
chamando-a "meu biscoitinho"
levou tremenda bolacha!...
29
Fim do amor… Desiludidos,
sabemos juntos, mas sós,
que há silêncios inibidos…
tentando falar por nós!
30
Hoje, em meu leito, sem ela,
enquanto resisto ao sono,
a Saudade é sentinela…
dando plantão… no abandono!
31
Imperfeito, eu rogo, aflito,
por nosso amor, que é perfeito:
- Não faças de mim um mito…
que mitos não têm defeito!
32
Liberdade — sentinela
da Paz, em qualquer lugar!
E quem não lutar por ela…
não tem mais por que lutar!
33
Lutando por ideais,
mesmo à beira da utopia,
tenho enfrentado os “jamais”
com meus “sempres” de ousadia.
34
Meu coração se acautela
e, imerso em desilusões,
faz da razão sentinela…
contra novas invasões!
35
Meus ideais mais risonhos
correm livres, sempre em frente,
numa corrente de sonhos,
que rompe qualquer corrente!
36
Na pesca, era o Chico Armando
o maior ... pescava aos feixes...
até que o pesquei... pescando
num Entreposto de Peixes...
37
Na vida, que te conduz
às mais diversas pelejas,
se não puderes ser luz,
que, ao menos, sombra não sejas!
38
Nosso amor, desde o começo,
tem tal alcance e medida,
que, quanto mais envelheço,
mais o sinto… além da vida!
39
O cafuné deles dois,
na rede, foi arretado...
E, nove meses depois,
batizou-se o resultado...
40
O meu amor te ocultei!
Seguimos rumos diversos…
Passou-se o tempo, e, hoje, eu sei:
- permaneceste em meus versos!
41
Poeta é aquele que abraça
a noite, sentindo-a sua,
e bebe estrelas na taça
inspiradora… da lua!
42
Que encrenca, junto ao jazigo,
causa o defunto... esquentado:
- “Nada de tampa comigo,
que eu vou morrer... sufocado!”...
43
Quem ama… libera o ardor
dos impulsos naturais,
que, em desvarios de amor,
loucura alguma é demais !
44
Quem tem a luz do saber,
muito mais que outro qualquer,
tem de cumprir o dever
de ser luz… onde estiver!
45
São tão poucos os esforços
para amparar a pobreza,
que eu chego a sentir remorsos...
pelo pão em minha mesa!
46
Saudade - aquela torneira
que, apesar de bem fechada,
pinga e pinga... a noite inteira,
mantendo a insônia acordada!
47
Saudoso, namoro a Lua
e sinto, por seu feitiço,
que o nosso amor continua,
embora nem saibas disso!
48
Se em casa ele manobrava,
maquinista, um "trem" de filhos,
na rua a mulher levava
a vida "fora dos trilhos"...
49
Sem você, luto, em conflito,
contra o que a sorte me fez...
a ver se desfaço o mito
de só se amar uma vez!
50
Sineiro que não se cansa,
meu Passado, sem piedade,
tange os sinos da lembrança,
para acordar a Saudade...
51
Sonhador, poeta… e amante
de quanto a vida me dá,
que importa a lua distante…
se os meus sonhos chegam lá ?!…
52
Tenho um segredo profundo
- e, é de amor… – e, tarde ou cedo,
eu gostaria que o mundo
soubesse desse segredo!
53
Teu ciúme, cortando os laços
do nosso amor, me magoa…
mas meu amor abre os braços
e, por amor, te perdoa!
54
Toda noite ela regressa
em meus sonhos erradios…
Não há distância que impeça
de eu tê-la… em meus desvarios !
55
Vai pra pesca... apetrechado...
Mas, sendo ao caniço avesso,
volta com peixe embalado,
etiquetado... e com preço!...
56
Vem do sol a luz de prata
que parte da lua encerra…
E a lua, modesta e grata,
deita pratas sobre a terra!

domingo, 12 de março de 2017

Joao Batista Xavier Oliveira


1
A alegria despertava
quando a porteira se abria.
Hoje aberta... sem a trava...
só transita nostalgia!
2
Alvo de risos e palmas
embutido em seu disfarce,
o palhaço lava as almas
querendo da dor vingar-se!
3
A neve em nossos cabelos
não arrefece a união;
o tempo com seus desvelos
aquece nossa paixão.
4
Anos dourados, orquestras,
rostos colados, penumbra,
voltas em passadas destras...
o meu passado vislumbra!
5
Após a invenção da roda
a pressa, numa rodada,
parece que virou moda
na roda-viva enrolada!
6
Aquele que não respeita
o tempo, na semeadura,
certamente na colheita
não terá fruta madura.
7
Assim como não se para
o tempo, naturalmente,
um grande amor não separa
duas almas no poente!
8
Bem no meio da floresta
a terra respira fundo...
Aproveita o que lhe resta
arejando mais o mundo!
9
Busquei na vida sentido
para compreender meus ais:
um grande orgulho contido
e amor pequeno demais!
10
Como sou tão distraído!
Após você ir embora
notei quem tinha fugido:
eu de mim... somente agora!
11
Comprimido pelo tédio
teu elixir foi meu mal.
És para mim, do remédio,
o efeito colateral!
12
Cultivar rosas consiste
em saber do espinho oculto;
a ilusão dorida existe
na vida envolta num vulto.
13
Das mãos limpas que me valho
são exemplos dos meus pais:
honestidade e trabalho;
ganância... inveja... jamais!
14
Dinheiro não cai do céu
e de pedra não sai leite;
quem espera sempre ao léu
não passa de um vil enfeite.
15
Distância não é medida
se a paixão é verdadeira;
o calor de despedida
não diminui a fogueira.
16
Eu me sinto um fugitivo
sem teu olhar prisioneiro
pois na prisão em que eu vivo
o amor é o meu carcereiro!
17
Felicidade consiste
olhar a vida risonha...
um brilho que não existe
nos olhos de quem não sonha!
18
Na distância dos abrolhos
que abrigam os excluídos,
quanta súplica nos olhos
ao silêncio dos ouvidos...!
19
Não é ilusão dos meus olhos
nem delírio de carência;
são os sinais dos escolhos
desenhando a tua ausência!
20
Não há sorriso que emplaque
na comédia desta vida,
se, na ironia da claque,
qualquer verdade é escondida!
21
Não quero rimar espera
na tua ausência dorida;
ao chegar a primavera
a esperança é colorida!
22
Na praça, o coreto dorme...
despertando a minha infância.
E aquela saudade enorme
encurta mais a distância!
23
Nas noites esperançosas
meu sonho... apenas um vulto...
é um jardineiro entre as rosas
nos seus espinhos oculto!
24
No fim do túnel a luz
sinaliza uma esperança.
Quem a seu brilho conduz
a vitória sempre alcança!
25
No jardim da minha infância
quantas flores eu colhi!
Ainda sorvo a fragrância
toda vez que volto aqui!
26
Novas auroras... quimeras...
esperanças e portais.
Parecem que em primaveras
as flores encantam mais!!
27
O caráter se desfaz...
irmão não é mais irmão...
se a mentira for capaz
de confundir a razão.
28
O dom do perdão desperta
a esperança então contida.
Renascer é a porta aberta
às causas nobres da vida.
29
O ponto de referência
que nos uniu de verdade
foi a esquina da paciência
com as ruas da saudade!
30
O presente desatina
quem cai no conto falaz:
– trocar voto por botina
leva sempre um pé por trás!
31
Parece um sonho e me espanta
nosso amor tanto expandir.
A felicidade é tanta
que receio até dormir!
32
Pelas flores que plantei
entre espinhos... muito fiz
que um grande jardim ganhei:
Minha sina é ser feliz!
33
Pergunto ao tempo até quando
a falsa paixão se esconde.
E ele passando... passando...
sutilmente já responde!
34
Pés na calçada da fama;
mãos abanando fortuna...
porém sua alma reclama
na solidão que importuna!
35
Procurei felicidade
todos momentos da vida.
Encontrei-a na humildade:
estava em mim... escondida!
36
Procurei na vida um jeito
de viver que me incentiva:
– no jardim, amor-perfeito;
– na esperança a sempre-viva!
37
Quando o céu desaparece
o espírito em desarranjos
para encontrar-se na prece
precisa de muitos anjos!
38
Quando se enxerga o inimigo
o embate é menos atroz,
pois ele é maior perigo
estando dentro de nós.
39
Quantas pedras removidas
e quantas por remover.
Provações em nossas vidas,
que só nos fazem crescer!
40
São os cuidados dos pais
que molduram nossa vida.
Laços eternos jamais
se perdem na despedida.
41
Saudade em versos e prosas...
cantiga mais entoada.
Entre os espinhos e as rosas...
é a solidão perfumada!
42
Se a vitória é consequência
dos degraus da falsidade,
os valores da aparência
jamais provam dignidade!
43
Se cuidarmos bem da fonte
a natureza eterniza
os vislumbres do horizonte
com as promessas da brisa!
44
Sinto a brisa descansar
sua ternura em minha alma
quando a luz do teu olhar
a minha tormenta acalma.
45
Teatral! Muito fagueira
a trova não é pequena:
– representa a peça inteira
em uma única cena!
46
Tépidas mãos conduzindo
mãos carentes e cansadas
mostram o mundo mais lindo
com luzes nas caminhadas.
47
Um pequeno gesto basta;
pode mudar uma vida:
– o instante que a mão se afasta
de outra mão na despedida.